“I’ve been away for too long” – O Soundgarden no Lollapalooza Brasil

Este texto foi escrito pelo nosso amigo e fã de música Caio Simoneti

Em meio ao contexto de renascimento de grupos dos anos 90 que tem acontecido ultimamente, a volta do Soundgarden foi tida, a princípio, como “tímida”. Comparada ao triunfante retorno do Alice In Chains, com um vocalista capaz de honrar o inesquecível Layne Staley e dois albuns de qualidade, ou ao complicado “retorno” dos Stone Temple Pilots  (um album e pouco tempo depois, Scott Weiland já foi demitido e substituído por… Chester Bennington do Linkin Park?), a retomada do Soundagarden parece não ter dado muito o que falar por um bom tempo. Desde o anúncio do retorno do quarteto no início de 2010, os fãs precisaram esperar um bom tempo até que a banda demonstrasse estar realmente de volta à ativa, seja por meio do lançamento da coletânea Telephantasm, do efetivo retorno aos palcos ou do anúncio do novo trabalho do grupo, o King Animal, lançado apenas em 2012.

 

Contudo, a performance da banda no Lollapalooza este ano aparentemente nos leva ao velho ditado “a pressa é a inimiga da perfeição”. Apesar do suposto marasmo que caracterizou o início da nova fase da banda, o Soundgarden que subiu ao palco Onix no segundo dia do festival se impôs como um conjunto de músicos competentes e confiantes determinados a conquistar um novo território: embora o frontman Chris Cornell já tenha vindo ao país algumas vezes para o deleite dos fãs, o Lollapalooza foi a primeira performance do Soundgarden propriamente dito no Brasil (ainda que o baterista Matt Cameron estivesse ausente devido a compromissos com sua outra banda – um certo grupo chamado Pearl Jam – , sendo então substituído por Matt Chamberlain, antigo baterista do… Pearl Jam).

A performance se iniciou com a lenta, porém consagrada, Searching With My Good Eye Closed, seguida pela agitadíssima Spoonman. A abertura com dois grandes sucessos dos dois albuns mais importantes da banda (o Badmotorfinger, de 1991, e o Superunknown, de 1994) deixou claro o tipo de show que estava por vir: uma avalanche de clássicos do grunge, para a alegria dos fãs. O fato tornou-se cada vez mais evidente ao longo do show com a clara predominância de sucessos do Superunknown, até hoje o album mais aclamado do grupo e que completa 20 anos, além da relativa ausência do novo trabalho, o King Animal, presente apenas através de sua primeira faixa: Been Away Too Long.

 

A única faixa do novo trabalho da banda pareceu, de certa forma, um momento especial durante o show. Antes de começar, Chris Cornell apontou para a imagem do album atrás do palco e fez uma declaração que pode ser interpretada como uma atitude progressista do frontman quanto às novas formas de distribuição de mídia: “This is our new album, we did it for you. Steal it, buy it, download it illegally… Do what you want, but check it out” (“Este é nosso novo album, nós o fizemos para vocês. Roube, compre, baixe ilegalmente… Faça o que você quiser, mas dê uma olhada”).

 

Além disso, a canção expressa justamente a situação pela qual a banda passa no momento. Os versos “No one knows me/No one saves me/No one loves or hates me/I’ve been away for too long” (“ninguém me conhece/Ninguém me salva/Ninguém me ama ou me odeia/Eu estive fora por muito tempo”) podem ser relacionados a um fator que talvez tenha sido o único ponto baixo do show: o público. Mesmo com um setlist que visava muito mais os sucessos do grupo do que promover o novo trabalho (estratégia diametralmente oposta à do Pixies em seu show), era possível ver certos momentos de apatia por parte da multidão – exceto pelas áreas mais próximas ao palco, ocupada necessariamente por fãs de carteirinha capazes de acompanhar Chris Cornell através de todos os versos. Tal efeito pode ser justificado pela relativa introspecção do retorno da banda, sem falar da falta de “tradição” no Brasil – algo que o Alice In Chains e o Pearl Jam já possuem há muitos anos. Ainda assim, mesmo tendo sido surpreendente observar pessoas paradas diante do rítmo de Spoonman – uma canção muito apropriada para se dançar loucamente como a Lorde – , o grande hit Black Hole Sun puxou um coro unânime com seu refrão inconfundível.

 

Por fim, o Soundgarden conseguiu fazer uma estreia em território brasileiro digna de um dos pilares do panteão do grunge. O show, focado mais nos sucessos antigos do que na divulgação do novo material da banda, não pareceu indicar nostalgia, mas a ambição do grupo de instigar novos fãs através dos grandes momentos de sua obra – além, é claro, de reconquistar e homenagear os antigos seguidores da banda. O grupo segue em forma, com a maturidade e o profissionalismo que a idade lhes atribuiu –  e apesar de Chris Cornell já não ser mais o jovem cabeludo que pulava sem camisa no meio de um parque industrial no clipe de Outshined, o vocalista ainda mantém uma incrível habilidade vocal, evidente na explosiva  Jesus Christ Pose e em Beyond The Wheel, canção do primeiro album da banda (Ultramega OK, de 1988) que encerrou o show.

 

SET LIST:
Searching With My Good Eye Closed

Spoonman

Flower

Outshined

Black Hole Sun

Jesus Christ Pose

Like Suicide

Been Away Too Long

The Day I Tried To Live

My Wave

Superunknown

Blow Up the Outside World

Fell on Black Days

Burden in My Hand

Rusty Cage

Beyond the Wheel

 

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