Fascinação com o vintage?

Este texto foi escrito pelo nosso amigo e fã de música Caio Simoneti

Um tema recorrente e, às vezes, até inevitável nas discussões a respeito de música e arte hoje em dia é o retrô, o vintage. Talvez impulsionada por algumas tendências da cultura hipster, a volta ao passado parece ter ganho um destaque na atualidade e muito já é pensado sobre as razões intrínsecas disto. Conservadorismo? Esvaziamento de opções? Falta de criatividade? Ou simplesmente um pessimismo enrustido de uma geração (em algum nível) consciente dos graves problemas ecológicos que se anunciam para o próximo século?

A princípio, muitos vêem a cultura pop atual como um personagem de um certo filme de Woody Allen (tentarei não deixar o filme muito explícito para evitar spoilers) que, frustrado com o século XXI, consegue voltar aos anos 20 do século passado – considerados por ele como a “época de ouro” – e encontrar ídolos como Ernest Hemmingway e F. Scott Fitzgerald. Boa parte da juventude de hoje em dia tem o mesmo sonho, mas em relação aos anos 60 e 70. Afinal, que fã de Led Zeppelin não adora assistir Quase Famosos e fantasiar sobre a época?

Por isso mesmo, muitas vezes o estado atual da cultura pop é visto como esvaziado de criatividade, condenado à reciclagem de fórmulas do passado adaptadas cada vez mais anacronicamente. Um olhar retrospectivo, porém, nos possibilite observar que talvez isso não seja um monopólio da atualidade.

Seguindo o filme de Woody Allen (e aqui viria o spoiler), nosso personagem do século XXI faz amizade com uma carismática mulher muito envolvida nos meios artísticos – uma verdadeira expressão do espírito daquele tempo. Ele,contudo, fica atônito quando sua amiga se diz frustrada com seu tempo (os anos 20) e gostaria muito mais de viver na belle époque.

Algo similar pode ser encontrado nos próprios momentos por nós glorificados na atualidade. The Who e Jimi Hendrix, por exemplo, usaram trajes inspirados em roupas do século XIX, embora não fossem exatamente as roupas utilizadas pelas pessoas neste século. O movimento punk, por sua vez, visava trazer de volta as raízes cruas e simples do rock em seu início para combater o virtuosismo e a produção do rock progressivo e psicodélico, mas isso não significa que os Sex Pistols faziam o mesmo que Elvis Presley. Da mesma forma, o grunge foi uma retomada do punk contra o hair metal e as boys bands dos anos 80 (ou simplesmente tudo que a Mtv promoveu na época), mas Nirvana não é The Clash.

De fato, a reciclagem não é uma ideia inédita do século XXI. O fato de Alex Turner atualmente parecer um personagem de Grease não significa uma volta desesperada ao passado e basta ouvir qualquer coisa dos Arctic Monkeys para perceber que eles não estão tentando ser Elvis.

   

É realmente possível identificar traços de retomada em certas bandas, mas isso não significa falta de criatividade ou nostalgia. O Tame Impala, por exemplo, tem um estilo psicodélico que com certeza deve muito aos anos 60, e a voz de Kevin Parker pode parecer a de John Lennon, mas com certeza não é uma banda para recriar velhos tempos. Você os verá no Cine Jóia, não no Dinossauros.
Ainda podemos ver outros claros exemplos em bandas atualmente colocadas sobre o ambiguíssimo rótulo de garage rock. Tal classificação, originalmente relacionada a grupos proto-punk como Iggy & The Stooges ou MC5, atualmente é atribuída a bandas como Strokes, Black Keys, ou praticamente qualquer coisa com um som cru e minimalista (o que geralmente também tende a ser chamado de punk). É claramente perceptível que, apesar de terem sido influenciados, os Strokes não são uma mera tentativa de recriar um Stooges e têm contribuído para a música com um som bem singular.

É difícil, portanto, dizer que a música atual é presa a fórmulas antigas e incapaz de transgressão quando os próprios inovadores de outrora também faziam uso de influências passadas. A reciclagem não é um caminho para aqueles incapazes de criar, mas um instrumento quase obrigatório para a criação. A inovação não surge do nada, mas de uma articulação de contribuições do passado e tendências atuais. Na verdade, a grande onda de crítica sofrida pela música atual talvez seja, no final das contas, um sintoma da existência de um caráter transgressor. Afinal, a crítica e a polêmica naturalmente se dirigem ao novo e não ao consagrado.

Quanto às análises que diagnosticam uma perseguição do passado como um sinal de descrença em relação ao futuro, provavelmente estão corretas pela metade. É verdade que a juventude está cada vez mais ciente de problemas de caráter ambiental, econômico e social, e que talvez realmente seja inevitável um colapso futuro que condene a humanidade a uma mudança radical de modo de vida ou à inexistência. O pessimismo é real. A questão é que, – e aí está a metade errada destas justificativas – , o pessimismo não pode ser considerado um empecilho à produção cultural necessariamente. Em séculos passados, a humanidade já viveu diversos momentos de decadência, seja na erado Romantismo ou durante as diversas crises econômicas do século XX, mas isso não constituiu um estagnador cultural – na verdade, em muitos casos, a desolação foi mais um catalisador.

Segue um documentário que fala um pouco sobre o assunto:

 

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